Uma Praça em Antuérpia
Autora: Luize Valente
ISBN: 978-85-01-10317-8
Páginas: 364
Após sua estreia literária com O segredo do oratório, sucesso de público e crítica, Luize Valente volta a mergulhar, de maneira ainda mais surpreendente, na história de uma família de migrantes em Uma praça em Antuérpia.Com domínio da narrativa, que vai e volta do ano-novo de 2000 em Copacabana para os anos da eclosão da Segunda Guerra na Europa, Luize reconstitui a desgraça imposta pelo nazismo aos judeus, razão pela qual muitos deles viriam fazer a vida no Brasil.Reunindo sensibilidade pelo drama humano e extensa pesquisa histórica, Luize retrata a chaga do nazismo na miudeza do cotidiano, na intimidade das famílias alemães e europeias, com bárbaros desdobramentos em Portugal, no lar de Clarice e Olivia, de onde a narrativa parte para ganhar o mundo e o Brasil. Acompanhamos a fuga de Clarice e seu marido, o pianista judeu Theodor, por grande parte da Europa, sempre um passo à frente da perseguição nazista, fuga que leva parte da família a cruzar o oceano. Como se não bastasse essa narrativa de tirar o fôlego, Luize presenteia o leitor com um final emocionante e totalmente inesperado.
Na primeira página do livro, o leitor se depara com Olívia, na virada do ano dois mil. Com um aperto no peito, ela conta sua história a Tita, sua neta. A narrativa se inicia com a história de duas irmãs inseparáveis, Clarice e Olivia, criadas pela avó. Porém, quando adultas, tiveram de seguir por caminhos diferentes e acabaram se separando, mas sempre mantendo contato.
Após a morte da avó, Olivia casou-se e a irmã seguiu com ela para Lisboa. Fascinada pela música, Clarice saiu a procura de uma boa melodia. Fora essa melodia que a arrastou para um café em um beco escuro. Sentou-se em uma mesa e ouviu o pianista tocar com tanto esplendor, que fechou os olhos. Ao reabrir, Theodor estava em sua frente, aquele era o início do amor entre os dois.
Estudava as partituras, nota a nota, acariciava as teclas, virava uma extensão do piano. Produzia sons que pareciam nascer do ar. Fascinava qualquer um que o ouvisse tocar.
Os dois se apaixonaram no momento em que se viram. Passaram a se encontrar e passear de mãos dadas. Eis que alguns problemas começam a surgir, Theodor desapareceu por um tempo, e quando voltou debaixo de uma tempestade, teve de dizer adeus para Clarice. A situação os pegou de surpresa, e aquela seria a primeira noite de muitas.
O pianista, perseguido, teve de fugir. Deixou-a em prantos, e sem saber, grávida. Aquele amor tão puro deixou um fruto, Bernardo viria a nascer saudável, para que ela sempre tivesse Theodor por perto. Ainda grávida, resolveu mudar-se de cidade até o bebê nascer, não sabia se ele voltaria, tudo indicava que não.
O comunista voltou a procura de sua amada e não a encontrou em casa. Avisado da notícia, correu a encontrar a mãe de seu filho. Os dois então casam-se e passam a viver uma linda história de amor. Ainda fugindo daqueles que o perseguia, a família mudou-se para Bélgica, ao lado da Alemanha. Em uma praça de Antuérpia, a família viveu momentos que Clarice jamais tiraria da memória. Uma ultima lembrança daqueles que se amavam tanto.
A essa altura o marido de Olivia parte para o Brasil, e deixa a mulher em Portugal. A Guerra eclode. Além dos bombardeios, da perda de seus pertences, as pessoas perderam também sua dignidade. Muitas delas tinham uma família a quem se agarrar, era o caso de Clarice. Theodor tentou proteger ao máximo sua família, juntos, eles viriam a viver uma série de acontecimentos.
Mesmo diante de toda destruição e incerteza, eles tinham pequenos momentos de alegria juntos. Cada lembrança, cada toque e gesto, fazia com que eles se aproximassem mais um do outro. A família pretendia partir para o Brasil. Durante sua jornada, encontraram várias pessoas que os ajudaram, e ajudaram também várias pessoas. Um pequeno gesto diante da guerra era suficiente. Porém, tão perto do destino, algo vem a mudar a vida de toda uma família.
Aquela pergunta que Clarice tantas vezes se fizera nas últimas seis décadas, vinha carregada do pesar por uma perda adormecida em algum canto escuro do cérebro, como um lampião velho e enferrujado. Ao receber um pouco de querosene, esse canto é iluminado por um clarão de consciência, mas logo se esvai. O lampião é que permanece ali, até receber mais combustível, acender, e novamente apagar.
Nunca havia lido nada parecido, este foi um dos primeiros romances históricos que li. A autora fez uma narrativa com flash-backs, a história vai e volta, dando mais credibilidade. A linguagem é simples, e flui muito bem. Porém, não é um livro que deva ser lido em apenas um dia. Uma Praça em Antuérpia deve ser degustado, não com vagareza, mas na medida certa. Há muitas informações e isso requer um tempo para absorver toda a história.
Este livro conta com detalhes a vida dos refugiados durante a Guerra. E apesar de conter muitas informações verdadeiras acerca dos combates, não fica difícil de entender. É válido mesmo para quem não sabe muito de história.
Eu gostei muito da narrativa de Luize. Ela sabe como cativar um leitor. O livro é dividido em capítulos curtos, e ao final de cada capítulo, a última frase faz com que fiquemos curiosos acerca do próximo. O jogo de palavras criado e a facilidade com que as palavras se completam é encantador.
Embora o Führer estivesse perseguindo os judeus, Clarice ao juntar-se a Theodor, também passou a ser judia. O pianista não era adepto da religião, já ela participava das celebrações da comunidade, e prestigiava o Shabat. Além disso, o cerco se fechava, e mesmo assim Theodor resolveu ir para Bélgica com a família, ao lado da Alemanha! Essas foram duas coisas muito pertinentes neste livro, mesmo sabendo que poderiam ser mortos, eles insistiram em ficar tão perto e selar seu destino.
Ao final do livro, sempre fica a aquele gostinho de quero mais. Como leitora chata que sou, eu senti falta de um relato de como foi o reencontro de dois personagens. Porém, se isso acontecesse tiraria todo o encanto que Luize guardou para a última página. Cabe ao leitor imaginar a tão esperada cena. Amei ler esse livro, e você, o que achou? Leria? Deixe sua resposta nos comentários!

















